Inteligência Artificial e Blockchain: o dobro do modismo ou o dobro do valor?

A abordagem mercadológica da Inteligência Artificial (#IA) ainda apresenta um pouco de exagero, com fornecedores, clientes e imprensa algumas vezes sugerindo que a tecnologia seja a solução para todos os problemas da humanidade. Da mesma forma, o Blockchain também tem sido amplamente divulgado, com provedores e clientes pleiteando o uso da ferramenta para quase todo o tipo de situação. Assim, será que ao combinarmos IA e Blockchain geraríamos o dobro do modismo? Ou o dobro do valor ?

É notório que a IA efetivamente está entregando valor, real e tangível, em diversos projetos empresariais e governamentais envolvendo grandes bases de dados e algoritmos preditivos e prescritivos. Da mesma forma, o Blockchain está começando a mostrar sua relevância em uma variedade de cenários corporativos, onde contribui para ampliar a colaboração entre parceiros de modo seguro, reduzindo fraudes e disputas. Ou seja, a combinação de IA e Blockchain talvez possa gerar o dobro do valor agregado.

Em linhas gerais, a IA precisa de grandes quantidades de dados para aprender e tomar decisões estratégicas, e o Blockchain, por sua vez, assume o papel de uma nova forma de armazenamento de dados com segurança, independência e transparência.

O papel do Blockchain no contexto da IA

O Blockchain é um registro descentralizado e distribuído de transações, que possui elementos de transparência, confiança, rastreabilidade e auditoria, sendo regido pelos Contratos Inteligentes (#SmartContracts).

Ser descentralizado e distribuído significa que as informações são armazenadas na rede de tal forma que as pontas possam ter acesso aos dados sem a necessidade de sua requisição a um servidor central. Ademais, as transações também ocorrem em cada ponto da rede, sendo replicadas para os demais pontos automaticamente. Por fim, o Blockchain registra, de forma criptografada e assinada digitalmente, cada interação ocorrida entre as partes, maximizando assim a confiança, a rastreabilidade e a verificação dos dados do sistema.

O Blockchain é materializado em uma Cadeia de Blocos, onde cada bloco possui suas próprias informações e essas informações contêm um link para o bloco anterior, desenvolvendo-se, assim, uma cadeia entrelaçada de custódia. Nenhum ator individual pode alterar as informações em um bloco sem invalidar toda a cadeia de informações. Como a cadeia é distribuída em vários lugares, qualquer alteração na cadeia exige um consenso de todas as partes para que seja efetivamente executada.

Além do conceito de Cadeia de Blocos, há os Contratos Inteligentes, ou algoritmos descentralizados, que são acionados quando uma ação específica é solicitada. São estes algoritmos que contém as regras necessárias para a execução de uma transação segura, confiável e sem intermediários no Blockchain. Resumidamente, os Contratos Inteligentes são acordos digitais que garantes o cumprimento de um conjunto específico de regras acordadas no Blockchain.

Uma aplicabilidade imediata do casamento dessas tecnologias seria a possibilidade de compartilhamento de modelos de Aprendizado de Máquina (Machine Learning – #ML) entre as partes de um ecossistema, sem a necessidade da existência de um orquestrador central. No caso dos softwares de Reconhecimento Facial (Facial Recognition / Computer Vision), por exemplo, assim que um determinado dispositivo conectado (#SmartDevice) aprende a reconhecer a face de uma pessoa e a carrega no Blockchain, os demais dispositivos conectados nesta rede também passam a conhecer esta pessoa. Ou seja, cria-se assim uma solução de reconhecimento facial distribuída. Uma vez que o processo ocorre em um Blockchain, não há controle ou propriedade central sobre o banco de dados de imagens e, como tal, nenhuma empresa possui ou armazena estas informações separadamente. Além de viabilizar um aprendizado colaborativo, ou seja, mais eficaz e eficiente, o armazenamento dos dados biométricos tratados pela IA integrada no Blockchain garante sua integridade e imutabilidade.

Assim como no cenário acima, os sistemas de IA podem usar o Blockchain para facilitar o compartilhamento de dados gerados por diversos outros modelos. Por exemplo, o Blockchain pode viabilizar a construção de uma poderosa ferramenta de empoderamento digital de pequenas e médias empresas por meio de modelos de Aprendizado de Máquina com foco na Recomendação Colaborativa de Produtos no âmbito do comércio eletrônico.

Desta forma, se uma loja online conhece as preferências de um comprador, seu perfil também será reconhecido quando acessar o site de uma outra loja, caso ambos os sites estejam conectados por meio de um Blockchain que centralize as informações de personalização capturadas pelas lojas consorciadas e potencializadas por algoritmos de recomendação.

Neste caso, o Blockchain aglutina e consolida bases de dados menores, gerando um Big Data, que opera como um local de cooperação para que sites de comércio eletrônico com menos escala compartilhem suas informações de personalização. Assim, o conjunto de sites menores torna-se mais competitivo ao enfrentarem as Bigtechs e lojas online maiores, que possuem poderosos sistemas coleta de dados e recomendação de compra para seus clientes.

Em contrapartida ao consentimento (#OptIn) para o compartilhamento de suas informações, os consumidores recebem diversos benefícios, tais como a oferta de melhores preços, frete gratuito, acesso a programas de fidelização e experiências de compras personalizadas e mais prazerosas, entre outros.

Esta mesma abordagem, caso estendida para o armazenamento das informações referentes aos sistemas de pagamento, poderia inviabilizar violações e vazamentos de dados sensíveis, uma vez que sua gravação no Blockchain é assegurada por técnicas de assinatura digital e criptografia.

A estrutura conceitual do Blockchain faz dele uma solução sob medida para resolver um grande desafio para a comunidade de IA, ou seja, a questão da integridade dos dados, tanto nos inputs dos modelos preditivos quanto no output das previsões. Considerando-se aspectos de cyber-segurança, invasões podem comprometer a infraestrutura da empresa ou ainda pior, alterar parâmetros específicos de uma rede neural, gerando erros em suas previsões e possibilitando dessa maneira uma fraude avançada, se considerarmos mecanismos de autenticação ou biometria. Imagine que um hacker invade a infraestrutura da empresa, sem alterá-la substancialmente, alterando apenas no código da rede neural. Assim, ao modificar hiperparâmetros, como camadas, e adicionando grande ruído a inputs, modificando a taxa de aprendizado, convoluções e filtros, a fim de induzir artificialmente a rede neural a erros, ou ainda comprometer sua capacidade de generalização, o que pode mudar completamente um algoritmo de reconhecimento facial ou autenticação financeira.

Neste contexto, o Blockchain contribui sobremaneira para a validação de um dos principais axiomas da IA, ou seja, “os resultados da IA são tão bons quanto os dados nos quais se baseia”. Assim, ao garantir a autenticidade desses dados, o Blockchain combate a raiz de problemas como notícias falsas (#FakeNews), fotos e vídeos falsos (#DeepFake) e identificação digital falsificada ou clonada.

O emprego da tecnologia Blockchain na construção de uma “trilha da verdade” referente aos dados processados pela IA cria uma camada de proteção que tanto garante ao acesso às suas fontes originais dos dados, quanto assegura a autenticidade de suas versões.

O papel da IA no contexto do Blockchain

Os sistemas de IA podem ser usados para melhorar os Blockchains em diversos aspectos. Os sistemas de Aprendizado de Máquina podem, por exemplo, monitorar as atividades do Blockchain, procurando padrões e anomalias nos tipos de dados armazenados (Blocos) e nas ações executadas (Contratos Inteligentes), emitindo alertas quando algo inesperado ou incomum acontecer. Desta forma, os sistemas de IA podem ajudar a manter o Blockchain mais seguro, confiável e eficiente.

Finalmente, embora os mundos da IA e do Blockchain ainda estejam cheios de entusiasmo, já existem inúmeros casos de uso corporativos reais, tangíveis e com retornos sobre o investimento mensuráveis, nos quais ambas as tecnologias emergentes são empregadas, se beneficiando mutuamente e fornecendo resultados valiosos para as empresas e governos.

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